AO
QUERIDO AMIGO ANALFABETO
POLÍTICO.
por Leonardo Mendes
O Jornal da Globo agradece a audiência.
Peço que não me leves a mal por chamá-lo assim, e considere
que isso não é uma ofensa, uma acusação de falha no caráter, nem mesmo culpa
tua. E você não é meu inimigo.
Peço então apenas que pondere se não é verdade que nunca te
interessaste por política.
Se é mentira que até pouco tempo não sabias sequer diferenciar direita e esquerda. Que nunca leste livro algum sobre o tema ou atuaste em movimentos populares ou partidos políticos.
Se é mentira que até pouco tempo não sabias sequer diferenciar direita e esquerda. Que nunca leste livro algum sobre o tema ou atuaste em movimentos populares ou partidos políticos.
Digo então que não tens culpa, porque desde cedo foste
ensinado a ser assim. A não discutir política ou desprezá-la, e tiveste toda a
tua natural disposição ao tema – presente no animal político que és – cooptada
por um sistema que te quer apenas como consumidor de candidatos, que te convoca
a participar apenas de dois em dois anos, e que não te representa.
Como poderia, se desde o império representa os interesses de
uma elite da qual tu não fazes parte. O 1% que te ilude diariamente enquanto
tentas te informar no Jornal da Globo.
Lembras do editorial de O Globo contra o fim do
financiamento a candidatos e partidos por empresas? E aquele contra a taxação
de grandes fortunas? Talvez a capa que dizia que o 13º salário acabaria com a
economia do país…
Talvez não tenhas te interessado tanto por esses temas na
época, porque entre um e outro tinha um mar de lama da corrupção.
O que precisas entender então é que ser contra a corrupção
não basta. Que é preciso ir muito além disso, já que hoje as maiores
ilegalidades ainda são as permitidas.
Mas foste também convencido pelo 1% de que a legislação é a
Justiça. De que os juízes são representantes de Deus na Terra, pois tens no
Estado uma representação de teu próprio Deus, que tentas me impor. E esse Deus
te garante privilégios, tu há de convir.
Apesar de analfabeto político, és homem cis, branco, hétero,
com pais de classe média.
Tiveste acesso a toda educação formal que sonhaste, e
hoje és doutor, apesar da crise.
Tens também acesso a saneamento básico, plano
de saúde e a PM não está em guerra na tua comunidade.
Acreditas então na economia e no mercado, e que basta te
esforçares para alcançar tudo aquilo que o 1% recebeu como herança.
Na família Marinho, que tanto escutas, por exemplo, os três
irmãos herdaram uma fortuna que hoje chega a mais de R$ 60 bilhões. Isso daria
para comprar algo em torno de quarenta mil apartamentos como aquele do Guarujá,
que acusas Lula de ser o dono. Ainda assim acreditas que a fortuna dos Marinhos
é justa, honesta e meritocrática, e que Lula é o chefe da quadrilha.
Não quero tentar te convencer do contrário, mas sim que
percebas que há mais perspectivas entre o céu e a terra.
Que pode parecer mais importante para muitos uma
investigação sobre a mídia e seus parceiros no judiciário, do que uma sobre um
apartamento de classe média de um ex-presidente.
A desproporcionalidade no tratamento a Marinhos e Lula é
diretamente proporcional a diferença dos projetos que representam. Mas tu
preferes discutir pessoas a ideias, todos sabem disso, e por isso existe o Big
Brother. Não é à toa também que o espetáculo midiático em torno da política se
aproxima tanto do entretenimento.
Tu te alimentas de ódios e paixões produzidos por edições
maldosas da mídia ou frutos do inevitável destino de toda perspectiva. O que
precisas entender é que de nada importa gritar o teu ódio contra corruptos,
sendo que não encontrarás ninguém que defenda a corrupção. Não em público, e
mesmo Paulo Maluf já disse que confia na justiça.
Peço-te então apenas, que para o bem de todos os cidadãos
(tu incluído, nesse grupo tão diverso) leias mais sobre filosofia política,
invés de assistir a tantos noticiários diariamente.
Podes começar trocando
meia-hora do tempo dedicado a odiar o Lula em frente à TV, por trinta páginas
de Hannah Arendt, por exemplo.
Ou de “A Sociedade do Espetáculo”, da Constituição
Brasileira (na parte dos direitos) ou mesmo da Bíblia (nas partes que o pastor
esquece).
Sei que estais cansado e que preferes ligar a televisão ou
procurar no Facebook as opiniões que queres ouvir, para confirmar as tuas –
William Wack, por exemplo, que facilita muito esse processo, e não é sequer
preciso assisti-lo pra saber o que ele disse. Mas se desejares realmente deixar
de ser um analfabeto político, esse esforço certamente é necessário.
Talvez, em pouco tempo de boas leituras diárias, até te
apaixones por política, e pare de utilizá-la para descarregar frustrações ou de
visitá-la apenas nas urnas de dois em dois anos.
Mas precisarás admitir que foste assim por muito tempo, e
que uma parte tua deseja ardentemente voltar a ser, logo depois de derrubar
Dilma e ver restabelecida a paz nos noticiários.
Sei porém que não ruminas, então te peço apenas que evite os
excessos que te atrapalham a digestão dos fatos. Que evites consumir Eraldo
Pereira antes de dormir, ou revistas de fofocas políticas.
Em pouco tempo teu estômago odiará menos, e terás te curado
da intolerância à democracia e à diversidade de pensamento. Só assim deixarás
de ser um analfabeto político, ou mesmo um idiota. Um ignorante motivado por
lutas inglórias e guerras sujas, emburrecido ou preguiçoso demais para pensar e
que decidiu então terceirizar o pensamento.
O Jornal da Globo agradece a audiência.
Via: DCM
Via: DCM

