quinta-feira, 6 de março de 2025

Seria Apenas Ilusão ou Simplesmente Crises Fabricadas?

Seria Apenas Ilusão? | Crises Fabricadas e Pré-fabricadas: a Ilusão Sobre os Persistentes Problemas Fiscais

Por Henrique Morrone e Donadio Miebach!(¹)

Os resultados recentes da economia brasileira têm sido surpreendentemente positivos para os analistas do “mercado”...

O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu e a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 4,56% nos últimos 12 meses. A taxa de desemprego foi de 6,2% no último trimestre de 2024. Contudo, a taxa de investimento continua abaixo de 20%, o que representa uma média histórica preocupante. Como regra geral os analistas do “mercado” têm sistematicamente errado suas previsões em relação ao desempenho da economia nacional.

Entretanto, a interpretação adotada tanto pelos analistas do “mercado” como pela mídia corporativa visa induzir uma percepção negativa em relação ao desempenho econômico do País. Mesmo quando a economia mostra sinais de recuperação, o discurso prevalente é de que os problemas estão prestes a surgir. A ideia de que ações direcionadas à promoção do crescimento econômico sempre acarretam efeitos negativos parece ser um mantra recorrente entre os analistas.

Esses analistas possuem uma visão peculiar. 

Para eles, a crise da década de 1980 foi causada por desequilíbrios fiscais internos do Brasil, ignorando o impacto do choque externo nos juros promovido por Paul Volcker, nos Estados Unidos, bem como o fato de que a crise foi uma crise global abrangendo a maioria dos países em desenvolvimento. Eles também acreditam que a inflação foi controlada em 1994 por um grupo de economistas geniais, e não pela abundante liquidez internacional, que estava ausente nos anos 1980, bem como pelo Plano Brady que renegociou a dívida dos países periféricos. 

Para esses analistas, as crises sempre surgem devido ao descontrole fiscal, embora não haja evidências empíricas de que uma alta relação dívida/PIB seja impeditiva ao crescimento. Além disso, atribuem a baixa taxa de investimento ao excesso de intervenção estatal, e não à falta de espírito empreendedor ou à aversão ao risco. Para esses economistas, o processo de financeirização e as altas taxas de juros não seriam um problema para o País.

Embora essa visão seja pouco original, ela monopoliza o debate, criando diagnósticos equivocados. 

Ao amplificar crises e distorcer as causas do baixo crescimento, ela ganha protagonismo, mas gera mais confusão do que soluções. Por exemplo, o verdadeiro fundamento que permitiu a resolução da alta inflação foi abundância de liquidez internacional. Ousamos sugerir que a inflação teria sido controlada se um plano nos moldes do Cruzado tivesse sido implementado em 1994. 

De forma análoga, a elevada competividade dos automóveis japoneses no mercado dos Estados Unidos na década de 1980 surgiu com a valorização do dólar derivada da elevação dos juros. Embora a produtividade da indústria japonesa fosse importante, o câmbio apreciado teve papel central na crise do setor automotivo norte-americano. 

De forma geral, diagnosticar uma crise iminente como gerada exclusiva por fatores internos implica em distorcer fatos para avançar interesses e concepções específicas de determinados grupos sociais. Na medida em que tais diagnósticos reverberam na mídia corporativa, eles contribuem ainda para aumentar a visibilidade de alguns analistas.

No Brasil, o debate fiscal por vezes tem se centrado na insustentabilidade dos déficits da previdência social. 

Diversos governos tentaram resolver esse problema por meio de reformas previdenciárias. A “tese” defendida era de que o equilíbrio das contas da previdência seria suficiente para impulsionar o crescimento econômico nacional. Isso geraria maior confiança entre os empresários, estimulando o investimento e o crescimento da economia. No entanto, as reformas não estimularam o crescimento econômico do País. E, em 2025, novas reformas previdenciárias continuam a ser discutidas.

Além disso, episódios recentes de depreciação cambial, como o aumento da taxa de câmbio para R$/US$ 6,20 em dezembro de 2024, evidenciam a persistência da retórica fiscal. A narrativa dominante sugeria que a depreciação da moeda era causada (novamente) pelo desequilíbrio fiscal das contas públicas. 

O resultado primário foi um déficit de apenas 0,4% do PIB. Em fevereiro, a taxa de câmbio se apreciou, atingindo R$/US$ 5,70, revertendo o processo de depreciação. Esse movimento passou despercebido pelos analistas, que se mantiveram em silêncio. Mais uma vez, ficou claro que o problema não estava no lado fiscal. O déficit nominal de 8,4% do PIB teve como principal origem o pagamento de juros elevados. Esse silêncio e a cegueira seletiva são comuns no Brasil, tanto entre os economistas de “mercado” como na mídia corporativa.

Focar exclusivamente nos déficits públicos é uma análise falha e prejudicial ao crescimento do País. 

O verdadeiro obstáculo ao crescimento nacional são as altas taxas de juros, que favorecem uma minoria em detrimento da maioria da população. A conjuntura internacional também é fundamental para o desempenho da economia doméstica, especialmente para países em desenvolvimento como é o caso do Brasil. De maneira geral, as análises convencionais padecem desses problemas. Economistas devem adotar uma postura mais pragmática, analisando dados reais e enfrentando os problemas fundamentais da economia nacional.

Tanto economistas progressistas quanto os mais radicais tendem a prever crises iminentes e, por vezes, acertam. Já os analistas de “mercado” continuam alimentando mitos e ignorando a realidade. Revisar suas análises é essencial para assegurar a credibilidade da profissão e oferecer soluções eficazes para os desafios econômicos do País.

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