Por Henrique Morrone e Donadio Miebach!(¹)
Os resultados recentes da economia brasileira têm sido surpreendentemente positivos para os analistas do “mercado”...
O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu e a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 4,56% nos últimos 12 meses. A taxa de desemprego foi de 6,2% no último trimestre de 2024. Contudo, a taxa de investimento continua abaixo de 20%, o que representa uma média histórica preocupante. Como regra geral os analistas do “mercado” têm sistematicamente errado suas previsões em relação ao desempenho da economia nacional.
Os resultados recentes da economia brasileira têm sido surpreendentemente positivos para os analistas do “mercado”...
O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu e a inflação, medida pelo IPCA, ficou em 4,56% nos últimos 12 meses. A taxa de desemprego foi de 6,2% no último trimestre de 2024. Contudo, a taxa de investimento continua abaixo de 20%, o que representa uma média histórica preocupante. Como regra geral os analistas do “mercado” têm sistematicamente errado suas previsões em relação ao desempenho da economia nacional.
Entretanto, a interpretação adotada tanto pelos analistas do “mercado” como pela mídia corporativa visa induzir uma percepção negativa em relação ao desempenho econômico do País. Mesmo quando a economia mostra sinais de recuperação, o discurso prevalente é de que os problemas estão prestes a surgir. A ideia de que ações direcionadas à promoção do crescimento econômico sempre acarretam efeitos negativos parece ser um mantra recorrente entre os analistas.
Esses analistas possuem uma visão peculiar.
Para eles, a crise da década de 1980 foi causada por desequilíbrios fiscais internos do Brasil, ignorando o impacto do choque externo nos juros promovido por Paul Volcker, nos Estados Unidos, bem como o fato de que a crise foi uma crise global abrangendo a maioria dos países em desenvolvimento. Eles também acreditam que a inflação foi controlada em 1994 por um grupo de economistas geniais, e não pela abundante liquidez internacional, que estava ausente nos anos 1980, bem como pelo Plano Brady que renegociou a dívida dos países periféricos.
Para esses analistas, as crises sempre surgem devido ao descontrole fiscal, embora não haja evidências empíricas de que uma alta relação dívida/PIB seja impeditiva ao crescimento. Além disso, atribuem a baixa taxa de investimento ao excesso de intervenção estatal, e não à falta de espírito empreendedor ou à aversão ao risco. Para esses economistas, o processo de financeirização e as altas taxas de juros não seriam um problema para o País.
Embora essa visão seja pouco original, ela monopoliza o debate, criando diagnósticos equivocados.
Embora essa visão seja pouco original, ela monopoliza o debate, criando diagnósticos equivocados.
Ao amplificar crises e distorcer as causas do baixo crescimento, ela ganha protagonismo, mas gera mais confusão do que soluções. Por exemplo, o verdadeiro fundamento que permitiu a resolução da alta inflação foi abundância de liquidez internacional. Ousamos sugerir que a inflação teria sido controlada se um plano nos moldes do Cruzado tivesse sido implementado em 1994.
De forma análoga, a elevada competividade dos automóveis japoneses no mercado dos Estados Unidos na década de 1980 surgiu com a valorização do dólar derivada da elevação dos juros. Embora a produtividade da indústria japonesa fosse importante, o câmbio apreciado teve papel central na crise do setor automotivo norte-americano.
De forma geral, diagnosticar uma crise iminente como gerada exclusiva por fatores internos implica em distorcer fatos para avançar interesses e concepções específicas de determinados grupos sociais. Na medida em que tais diagnósticos reverberam na mídia corporativa, eles contribuem ainda para aumentar a visibilidade de alguns analistas.
No Brasil, o debate fiscal por vezes tem se centrado na insustentabilidade dos déficits da previdência social.
No Brasil, o debate fiscal por vezes tem se centrado na insustentabilidade dos déficits da previdência social.
Diversos governos tentaram resolver esse problema por meio de reformas previdenciárias. A “tese” defendida era de que o equilíbrio das contas da previdência seria suficiente para impulsionar o crescimento econômico nacional. Isso geraria maior confiança entre os empresários, estimulando o investimento e o crescimento da economia. No entanto, as reformas não estimularam o crescimento econômico do País. E, em 2025, novas reformas previdenciárias continuam a ser discutidas.
Além disso, episódios recentes de depreciação cambial, como o aumento da taxa de câmbio para R$/US$ 6,20 em dezembro de 2024, evidenciam a persistência da retórica fiscal. A narrativa dominante sugeria que a depreciação da moeda era causada (novamente) pelo desequilíbrio fiscal das contas públicas.
Além disso, episódios recentes de depreciação cambial, como o aumento da taxa de câmbio para R$/US$ 6,20 em dezembro de 2024, evidenciam a persistência da retórica fiscal. A narrativa dominante sugeria que a depreciação da moeda era causada (novamente) pelo desequilíbrio fiscal das contas públicas.
O resultado primário foi um déficit de apenas 0,4% do PIB. Em fevereiro, a taxa de câmbio se apreciou, atingindo R$/US$ 5,70, revertendo o processo de depreciação. Esse movimento passou despercebido pelos analistas, que se mantiveram em silêncio. Mais uma vez, ficou claro que o problema não estava no lado fiscal. O déficit nominal de 8,4% do PIB teve como principal origem o pagamento de juros elevados. Esse silêncio e a cegueira seletiva são comuns no Brasil, tanto entre os economistas de “mercado” como na mídia corporativa.
Focar exclusivamente nos déficits públicos é uma análise falha e prejudicial ao crescimento do País.
Focar exclusivamente nos déficits públicos é uma análise falha e prejudicial ao crescimento do País.
O verdadeiro obstáculo ao crescimento nacional são as altas taxas de juros, que favorecem uma minoria em detrimento da maioria da população. A conjuntura internacional também é fundamental para o desempenho da economia doméstica, especialmente para países em desenvolvimento como é o caso do Brasil. De maneira geral, as análises convencionais padecem desses problemas. Economistas devem adotar uma postura mais pragmática, analisando dados reais e enfrentando os problemas fundamentais da economia nacional.
Tanto economistas progressistas quanto os mais radicais tendem a prever crises iminentes e, por vezes, acertam. Já os analistas de “mercado” continuam alimentando mitos e ignorando a realidade. Revisar suas análises é essencial para assegurar a credibilidade da profissão e oferecer soluções eficazes para os desafios econômicos do País.
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Tanto economistas progressistas quanto os mais radicais tendem a prever crises iminentes e, por vezes, acertam. Já os analistas de “mercado” continuam alimentando mitos e ignorando a realidade. Revisar suas análises é essencial para assegurar a credibilidade da profissão e oferecer soluções eficazes para os desafios econômicos do País.
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