segunda-feira, 28 de abril de 2025

No Teatro do Escárnio a Base Bolsonarista se Reconhece, e o 'Mártir' Apodrece...

No Teatro do Escárnio a Base Bolsonarista Mais do Que se Reconhece | O 'Mártir' Apodrece, o Algoritmo Alimenta a Guerra Afetiva do Grotesco Bolsonaro...

Por Reynaldo José Aragon Gonçalves(¹)

O grotesco é o afeto que organiza o gozo fascista. E não qualquer gozo. Um gozo invertido, um prazer na destruição simbólica do outro.

Bolsonaro morreu mesmo. E se exibiu. Mas o espetáculo não termina com sua internação. Ele só se intensifica, se transmuta, se espalha em vídeo, em post, em *reels (vídeos curtos), em meme. Como nos ensinou Sara Goes em sua autópsia estética do bolsonarismo, o corpo apodrecido do ex-presidente não é a antítese de seu projeto. É o próprio projeto. 

Um corpo que arrota, que inflama, que delira e que se nega à cura. Um corpo que fede porque é disso que se alimenta o algoritmo. Mas há algo mais nesse grotesco que pulsa e mobiliza. Há um afeto que não se contenta em repugnar. Ele fideliza sim. Ele convoca. E mais do que isso, ele forma subjetividades.

Porque o grotesco não tem o mesmo peso afetivo para todos. Para os democratas, o grotesco é alerta. É sinal de que algo está errado. É o ruído dissonante que convoca o nojo, a angústia, o impulso ético de recusa. Para a esquerda, a imagem da abjeção é uma violência a ser desvelada, denunciada, exposta como sintoma do colapso. 

Mas para a base fascista, esse mesmo grotesco reverbera de outra forma. Ele não convoca a recusa. Ele clama por purificação. Ele não é o desvio. É o sinal. É um afeto em estado bruto, pulsando no centro de uma cosmovisão paranoica e moralista. Para essa base, o grotesco não é aberração. É evidência de que há um inimigo e de que é preciso eliminá-lo.

É nesse ponto que o grotesco se torna não apenas linguagem, mas dispositivo de guerra. Uma guerra afetiva, travada não por argumentos, mas por sensações. Não por projetos de país, mas por gestos de aversão e desejos de extermínio. O grotesco é o afeto que organiza o gozo fascista. E não qualquer gozo. Um gozo invertido, um prazer na destruição simbólica do outro. A cada imagem que escancara corpos abjetos, seja o da travesti espancada, do indígena invisibilizado, do pobre ridicularizado, a base se nutre. Ri, compartilha, venera. A gargalhada aqui é arma. 

Ela transforma a dor do outro em motivo de pertencimento. 

Como na cena em que Bolsonaro imita uma pessoa morrendo com falta de ar durante a pandemia, zombando do desespero de milhares que agonizavam sem oxigênio nos hospitais. Ou quando ri abertamente da morte de Rubens Paiva, desaparecido na ditadura. Ou ainda quando despreza e desumaniza a memória de Bruno Pereira e Dom Phillips, assassinados na Amazônia, insinuando que “isso acontece com quem vai por ali”. 

Em cada um desses episódios, a dor do outro é convertida em espetáculo. A agonia vira punchline. O luto se torna palanque. E é nesse teatro do escárnio que a base se reconhece, se reafirma, se alinha. Porque o grotesco aqui não é acidente. É doutrina.

E o algoritmo, atento, recompensa. Ele não julga. Ele entrega. Ele distribui o grotesco como vício, como quem oferece pequenas doses de desprezo para manter o sujeito engajado. O grotesco é dopamina fascista. Não é por acaso que os vídeos mais vistos são os mais escatológicos. O corpo bolsonarista, putrefato, sempre retorna. Internado ou não, ele aparece em alta resolução, em câmera lenta, em looping. Porque quanto mais escárnio, mais cliques. E quanto mais cliques, mais política.

A guerra cultural não é travada no campo da razão. 

Ela é disputada nos subterrâneos do afeto. O grotesco é a granada estética dessa guerra. Ele invade a sensibilidade anestesiada e a violenta. Não pelo choque, mas pela adesão. A repulsa deixa de ser uma linha de recuo e vira o início da radicalização. E é aí que a política do grotesco se torna mortal. Porque ela transforma o espectador em cúmplice. Depois, em soldado. 

O mártir fascista apodrece, sim. Mas sua decomposição é evangelho. Cada secreção é sinal. Cada gaze, cada fístula, cada gemido se converte em argumento. Um argumento pré-racional, afetivo, irracionalista. Porque o fascismo não opera pela persuasão. Ele opera pela sensação. E o grotesco é sua estética de guerra.

O cadáver de Bolsonaro, ainda que vivo, não pede compaixão. Ele exige culto. Um culto ao sofrimento performado, à vitimização como tática, à doença como messianismo. É o corpo agonizante do líder como metáfora de um país que também sangra. Mas não para curar. Sangra para unir os que desejam vingança. E o algoritmo, silencioso, registra tudo.

Para Sara Goes, cujo olhar afiado e escrita luminosa não apenas desvelam as camadas do presente, mas também fazem da análise um gesto de coragem e beleza. Este texto se inscreve como um eco, uma dobra, talvez um sussurro intelectual na mesma frequência em que sua voz ressoa, precisa, inquieta e irremediavelmente necessária.

(...)