quarta-feira, 16 de abril de 2025

'Presumidamente Inocente', Qualquer Semelhança com o Judiciário Brasileiro é ...Mera coincidência!

Achamos na Rede... | Justiça em Colapso: o que Acima de Qualquer Suspeita Revela Sobre os Limites Éticos e Institucionais do Judiciário

Por Carlos Augusto(¹)

A obra Presumed Innocent (Acima de Qualquer Suspeita), de Scott Turow, em suas diferentes versões — romance (1987), filme (1990) e série da Apple TV+ (2023) — constitui um estudo profundo sobre os mecanismos de poder, retórica e manipulação que permeiam o sistema judicial. A narrativa parte de um crime — o assassinato de uma promotora — e se desdobra como crítica institucional, revelando como a justiça pode ser instrumentalizada por interesses pessoais, políticos e corporativos.

O tribunal como palco de poder, não de verdade

O enredo apresenta um modelo institucional em que a justiça é menos um processo de verificação da verdade e mais um jogo de aparências. A culpa desloca-se do campo do ato para o campo da narrativa: não importa o que foi feito, mas como se convence o tribunal de que não se fez. O personagem central, Rusty Sabich, é simultaneamente agente e vítima do sistema. O julgamento não ocorre em busca da verdade, mas como campo de batalha entre estratégias retóricas, interesses de bastidores e pactos de autopreservação.

Essa lógica revela um Judiciário marcado por vaidades, disputas internas e instrumentalização da lei, em que operadores do direito agem conforme conveniências políticas ou corporativas, fragilizando os fundamentos da imparcialidade judicial.

O Sistema Faroeste como lente interpretativa

O cenário descrito por Turow dialoga com o conceito de Sistema Faroeste de Corrupção no Judiciário, que descreve a atuação de agentes públicos que deturpam os instrumentos legais para alcançar fins pessoais ou grupais. Rusty Sabich simboliza essa ambivalência: acusado pelo mesmo sistema que ajudou a construir, transita entre os papéis de promotor, réu e manipulador, expondo uma estrutura em que ética, lei e interesse se confundem perigosamente. A série da Apple TV+: identidade, exclusão e legitimidade

A adaptação de 2023, protagonizada por Jake Gyllenhaal, expande o escopo da crítica institucional. Elementos contemporâneos — como a tensão racial, os pactos de silêncio entre elites jurídicas e a fragilidade das instituições diante de traumas sociais — ganham protagonismo. A série propõe uma reinterpretação do enredo original à luz de debates atuais sobre legitimidade judicial e representatividade.

Dentre os destaques da nova abordagem estão:

* Ampliação da perspectiva feminina, com maior protagonismo das personagens mulheres, inclusive a juíza;

* Exploração explícita de questões raciais e de exclusão histórica no sistema de justiça;

* Narrativa fragmentada e complexa, que reforça a ambiguidade moral da história original com recursos visuais e temporais contemporâneos.

A série (2023): crítica institucional e atualização narrativa

A versão para streaming reconstrói a narrativa sob a ótica da televisão contemporânea: camadas temporais sobrepostas, aprofundamento psicológico dos personagens e abordagem crítica da estrutura judicial norte-americana.

Diferenciais da série: 

Atualização de temas morais e sociais; 
Representação mais ampla e realista do Judiciário;
Enfoque em temas como raça, gênero e privilégio institucional.

O filme (1990): estética noir e ambiguidade - Dirigido por Alan J. Pakula, o longa preserva o clima de tensão do livro, acentuando o suspense psicológico com uma direção sóbria e trilha sonora austera. A atuação contida de Harrison Ford contribui para a construção da dúvida permanente, embora o roteiro simplifique algumas camadas jurídicas da obra original.

Pontos marcantes do filme:

Clima sombrio e paranoico;
Conflito entre aparência e verdade;
Redução da complexidade institucional presente no livro.

Resenha comparativa: livro, filme e série

O romance original (1987): realismo jurídico e dilemas morais - A obra fundacional de Scott Turow consolidou um subgênero jurídico-literário ao inserir elementos técnicos da prática forense em uma trama de suspense psicológico. A narrativa em primeira pessoa mergulha no conflito entre dever institucional e desejos pessoais, construindo um retrato nuançado da promiscuidade entre poder e moral.

Destaques do livro: 

Linguagem jurídica precisa e acessível;
Crítica sutil ao corporativismo judiciário;
Dilemas éticos como eixo central da trama.

O que está em julgamento?

Acima de Qualquer Suspeita revela uma justiça cuja legitimidade está sob constante ameaça, não apenas pela ação de indivíduos, mas por um sistema estruturalmente orientado à autoproteção e ao jogo político. Em todas as versões da obra, permanece o alerta: quando a dúvida se torna sentença, o risco não recai apenas sobre o réu, mas sobre todo o sistema jurídico.

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